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O fim dos jogos analógicos (parte II)

A forma como nós temos utilizado a tecnologia tem provocados alguns “desajustes” sociais bem sérios. Lido diariamente com pessoas que ostentam uma lista de amizades que é contada aos 3 dígitos ao mesmo tempo em que possui uma extensa dificuldade de comunicar-se “com o outro” frente a frente. Problemas como ansiedade e déficit de atenção também são muito comuns em jovens que não possuem dificuldade em se desgrudar do smartphone.

Vê uma criança de dois ou três anos usar um tablet com tamanha naturalidade pode ser fascinante para alguns adultos. Quem trabalha com educação já deve saber o maleficio que esse contato precoce com esse tipo de tecnologia provoca.

Mas de quem é a culpa (supondo que exista alguma)? Do tablet, ou de quem incentiva o seu uso? Andando por aí, encontrando pessoas que sabem do meu trabalho e que ignoram o fato de que (ainda) tenho o direito a 30 dias de férias por ano, me perguntam: quando que começam as aulas? 
Educadamente respondo que estou de férias desde o dia primeiro de janeiro e isso é o que menos me preocupa ao mesmo tempo em que penso:

“Será que ela não aguenta mais o próprio filho em casa?”

O sucesso da galinha pintadinha, do pocoyo, da Peppa Pig não residem no fato de que as crianças gostam desses programas. Mas reside no fato de que os pais encontraram neles uma forma de entreter seus filhos(as) em seu lugar.

O mesmo acontece com os jogos digitais. Pais preferem que seus filhos passem o dia todo jogando no computador do que se submetam aos riscos da violência que tomou conta das ruas principalmente nas grandes cidades. Não posso julgar.

Mais uma vez insisto que não  vejo problema em deixar o filho(a) jogar no comptuador. O que me incomoda é o tempo empregado nessa atividade. É muito mais fácil entregar o terceirizar o entretenimento do jovem, entregando-o ao tablet ou ao vide-game do que abrir mão do seu próprio tempo de lazer para atuar como pai ou mãe e se divertir junto aos filhos (as).

Em um cenário onde existe esse distanciamento entre pessoas, provocadas não pela tecnologia mas pela forma como a temos utilizado, os jogos analógicos que nos são contemporâneos surgem como boa alternativa para que as pessoas, os amigos, a familia possam sentar em um lugar em comum e conversarem.

Essa característica: a de exigir a presença física dos participantes para que aconteça, faz dos jogos analógicos contemporâneos serem tão propícios para resgatar a convivência com o outro presencialmente pelo tempo em que durar o evento ao qual chamamos de sessão de jogo ou jogatina.
Repare que esse é um sentimento quase que exclusivamente de adultos. Pessoas que estão vivendo esse período ao qual se tem chamado de Era da revolução da informação mas nasceram em um tempo anterior a ele. Ou seja é um sentimento de quem não é nativo desse tempo.

Assim como os mais idosos viam com preocupação o surgimento do aparelho de televisão passamos a ver com preocupação as rápidas e sucessivas mudanças de nosso próprio tempo e por vezes esquecendo que o tempo muda o tempo todo. E esquecendo-nos disso inventamos doenças e rótulos para comportamentos que surgiram o se evidenciaram exponencialmente e passamos a tratá-los de forma patológica sem uma reflexão mais profunda de suas causas e porquês. A própria sociedade que vicia é a que pune.

Não quero dizer que tais patologias não tenham legitimidade. Digo apenas que nem todos os diagnósticos são de fato acertivos. Se Eistein, Gauss, La Place, Newton fossem crianças eles jamais seriam quem foram pois certamente passariam dopados com medicamentos para resolver seu desajuste de comportamento.

Me preocupa o fato de que alguns acham que jogo de tabuleiro  é remédio. Remédio para sua falta de tempo com a família e com os amigos. Remédio para o vício do vídeo game. Remédio para a preguiça  de estudar. E a medida em que os jogos contemporâneos ganham espaço esse tipo de “solução para os problemas da sociedade virtualizada”  é vendido pelos experts da propaganda contemporânea de maneira análoga ao médico que receita para seu paciente um medicamento. E quem são esses “médicos” que pregam o tempo todo que você deve comprar esse ou aquele jogo? Ou que o tempo todo nos bombardeiam com a “última lista dos jogos essenciais”? Ou com os 10 jogos que todos deveriam ter em suas coleções?

Tem gente ganhando dinheiro com board game. Tem gente gastando dinheiro com board game. Tem gente recomendado jogo como remédio. Tem gente usando jogo como solução para seus problemas.

  



  


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