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Pode ser que pareça algo simples: pegar um jogo e usá-lo como ferramenta pedagógica. 

Independente da forma que você utilize, ou qual jogo utilize os estudantes irão gostar. Eles gostam de qualquer coisa que não seja a aula tradicional. Contudo o sucesso da estratégia pedagógica não deve ser validado pelo gosto do estudante. O jogo deve antes, atender a alguns requisitos que estão mais ligados com o processo de ensino e aprendizagem do que com o mero divertimento.  


Documentação


O objetivo de estar na escola está ligado exclusivamente ao fato de que toda a sociedade espera que o(a) estudante esteja inserido no processo de ensino aprendizagem todo o tempo. Não é concebível que uma escola se permita executar algum processo que não tenha cunho pedagógico.

Não se iluda ao ler afirmações que os jogos como ferramenta de ensino são bem aceitos nas escolas  de uma maneira geral. Existe uma barreira muito grande para aceitação de jogos no ambiente da aula. Essa barreira quando não vem da direção ou da orientação pedagógica, vem dos colegas, dos funcionários ou dos(as) próprios(as) estudantes.

 É muito comum que os jogos sejam utilizados para entreter alunos  diante de lacunas de conteúdo ou de falta de professor e ao longo do tempo isso associou o jogo à “matação de aula”. Professores  de ciência certamente já passaram pela experiência de ter suas aulas experimentais associadas  ao “não ter aula”. 

Por esse e por outro motivos é importante que a utilização do jogo esteja bem pautada no plano de aula  e aconteça  sob o conhecimento da(o) pedagoga(o) responsável.  Várias vezes já fui visitado pela direção ou por algum curioso quando minha turma estava tendo uma aula com jogos. Essas visitas na maioria das vezes eram motivadas por “supostas denuncias” de outros professores, alunos e funcionários que eu não estaria dando aula e sim brincando com os alunos. Em todas as ocasiões, porém  os “pseudos fiscais” se depararam com o fato de que meu plano de aula estava de acordo e minha orientadora pedagógica estava ciente do que estava acontecendo naquele momento.

Durante dois anos eu estive a frente de um projeto voluntário de usar os jogos modernos  com estudantes no contra turno da aula. Nesse caso em especifico o objetivo não estava associado diretamente com o “ensinar  conteúdo”, pelo contrário era o de propiciar aos estudantes um momento de diversão lúdica. Além de toda a documentação convencional era imprescindível que todos os estudantes trouxessem uma autorização assinada por seus pais ou responsáveis. Ninguém frequentava o projeto sem essa autorização.

Esteja certo de sempre estar resguardado por todo e qualquer tipo de documento. De preferência tenha tudo impresso e organizado em uma pasta sempre ao alcance da mão.
    
Objetivo pedagógico


É importante terem claramente qual a mensagem que se quer transmitir aos estudantes com a utilização do jogo. Usar um jogo somente pela diversão pode ser válido em um projeto ou durante o recreio mas nunca no momento da aula. 

Os estudantes precisam saber claramente o objetivo do(a) professoro(a). O professor precisa ter em mente o que ele quer  ensinar e quais objetivos alcançar. Por isso nem todos os jogos serão adequados em determinadas situações.

O ensino de Física contempla a história da astronomia e a evolução do pensamento científico a cerca da gravitação. Me lembro de uma certa vez ter criado um jogo bem simples que elucidava a relação da variação da força gravitacional em função da diferença de massas entres dois ou mais planetas e do inverso do quadrado da distância de separação entre estes.

Minha opção por criar um jogo foi a inadequação dos jogos que eu conhecia e que tratavam de alguma forma o tema espacial. Os  meninos que frequentavam o projeto no contra turno queriam eu levasse na aula jogos como Alien Frotiers, Galaxias S/A, Mission Red Planet e outros. O porém é que mesmo que esses jogos tratassem da temática espacial, eles não eram condizentes com o que eu tinha como objetivo de aprendizagem para minha aula e por isso optei em gastar um sábado e domingo produzindo um jogo sobre gravitação. 

Em outro momento , numa classe do ensino fundamental e em um trabalho colaborativo com o professor de ciências, nos demos aos estudantes cartas feitas de cartolina em tamanho tarô americano. Eles deveriam desenhar alguma coisa relacionada ao espaço, aos planetas, ao céu e às estrelas. Eles poderiam desenhar o que quisessem com o material que quisessem (giz de cera, lápis, tinta etc.). Essa prática aconteceu após uma série de aulas sobre astronomia e da visitação a um  observatório da cidade. Depois que os estudantes desenharam as cartas nós as usamos com as regras do jogo DIXIT com os próprios estudantes. Os resultados superaram todas as nossas expectativas.

Resumindo: é importante que o jogo esteja associado de fora íntima com o objetivo  pedagógico do seu plano de aula.   
Adequação temática
A temática do jogo (considere que temática é diferente de tema) deve ser apropriada ao ambiente de sala de aula, onde você está lidando com jovens (menores de idade) de diferentes credos religiosos e inclinações culturais.  São totalmente desaconselháveis jogos do tipo Puerto Rico, Zombicide, Cash and Guns, Sons of Anarchy, Spartacus, etc. 

Por mais que a orientação da escola ou a pedagoga diga não haver problemas, utilizar um jogo inapropriado ao âmbito escolar pode trazer consequências graves á escola, no caso de algum pai ou mãe resolver reclamar ou denunciar à secretária de educação por quaisquer motivo, inclusive que não esteja ligado ao jogo.  E acredite, a secretária (ou núcleo) de educação não irá investigar se existe razão ou não para a queixa ou denuncia, ela irá simplesmente notificar a escola e possivelmente punir o(a) professor(a) antes de qualquer coisa. 
Escolha bem a temática do jogo. Para os “leigos” é ela que conta.

Tempo de duração


O tempo de duração de um jogo é muito importante  quando se pensa em utilizá-lo em sala de aula. Via de regra uma aula tem duração aproximada de 50 minutos. Aqui no Paraná é comum que se tenha 2 aulas seguidas de uma mesma matéria e as orientações da secretária de educação recomenda que o máximo de aulas consecutivas de uma mesma matéria seja 3 (fato que só vejo ocorrer no ensino fundamental).

 Porém não se deve ter a ilusão que você vai chegar abrir o jogo e iniciar a jogatina. É preciso considerar o tempo de organização da sala, de explicar as regras e principalmente de deixar claro aos estudantes os objetivos daquela atividade, as regras de “boa conduta” durante o jogo e o horário de encerramento  da atividade para o caso de haver a necessidade de reorganizar a sala.

Jogos com duração entre 30 e 40 minutos são bem apropriados. Outra coisa que em minhas experiencias passei a relevar foi reservar um tempo da aula para obter um retorno dos(as) alunos(as). É muito mais produtivo se o retorno vier no mesmo dia, enquanto o “sangue ainda está quente”. Deixa para pegar um retorno da gurizada num outro momento não é a mesma coisa.
  


Formando grupos 


Grande maioria dos jogos são idealizados para 4 jogadores. Alguns  podem suportar um quinto ou sexto jogador ao preço de aumentar o tempo de AP, DOWNTIME e tempo de jogo propriamente dito. Via de regra o professor(a) irá trabalhar com toda a classe ao mesmo tempo e deve estar bem evidente em sua mente: que ele deverá ter o total controle de todos os possíveis grupos formados na classe. 

Essa primeira consideração já implica que o professor deve estar de fora da jogatina (lembre-se seu objetivo não é sentar e jogar, mas propiciar aos estudantes aquele momento lúdico). Dito isso, os grupos de estudantes devem ter alguma sinergia entre si mas não devem ser formados simplesmente por esse fato. 
Se você possuir algum estudantes que já tenha experiência com o jogo, pode fazer dele um "monitor" que irá auxiliar aos outros ao tempo em que ele próprio aprende ensinando. Evite grupos com mais de 4 estudantes. Evite deixar em um mesmo grupo estudantes mais agitados e um ou outro mais recatado. Incentive grupos mistos com meninos e meninas mas não "force a barra". Nunca se esqueça de jovens que tenham algum tipo de SID, eles precisam de uma abordagem toda diferenciada.

Durante a aula eu sempre procurei jogos que de alguma forma pudessem ser utilizados de forma coletiva. Nas aulas de matemática, por exemplo jogamos de forma coletiva Chicago express, comum auxilio de uma câmera digital, um notebook e um projetor. Separei a sala em grupos e o tabuleiro de jogo montado ao centro da sala era projetado no quadro. Os grupos tomavam decisões coletivamente e seu representante manipulava o tabuleiro. Em outro momento usei a mesma tática em conjunto com uma professore de artes para jogar DIXIT. 

Seven Wonders é um jogo que funciona bem com 7 jogadores e com 3 caixas de jogo (2 minhas e 1 emprestada) consegui fazer toda a classe joga o mesmo jogo. Ao final de cada partida, os grupos eram embaralhados e algumas aulas depois os estudantes criaram uma versão do jogo utilizando "fórmulas de física". 

É importante que você tenha em mente mais de uma estratégia para trabalhar coletivamente ou em grupos com os estudantes. O numero de jogadores suportado por um jogo pode ser um fator bem importante para o sucesso ou fracasso da aplicação do jogo como ferramenta pedagógica. 


Recomendações

Não existe uma regra de qual jogo utilizar para atender um objetivo específico. Jogos diferentes podem surtir resultados diferentes em grupos diferentes dependendo de uma ou de outra época. 

Existe uma lista ( Jogos para sala de aula ) de jogo indicados para a se utilizar no ambiente escolar e que pode ser uma boa referência a priori. Acho que ela é um bom começo mas não se prenda a ela. Existem muitos jogos gratuitos PnP que podem servir como alternativa ao fator custo financeiro.


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