Vencer ou perder deve ser uma possibilidade e não uma
certeza no jogo. Nessa perspectiva jogar envolve correr riscos.
Um grande paradigma dos jogos contemporâneos é o fato de que
arriscar-se passou a ser mal visto, coisa de jogador sem planos, imprudente e
descompromissado. Salvo os jogos que envolvem blefe.
Uma das coisas “chatas” do xadrez é que quando jogado em
alto nível nele não há espaço para correr riscos. O jogador que subestimar seu
oponente e tentar algo arriscado, certamente será duramente e punido.
Em jogos produzidos mais recentemente jogar de forma ousada
e arriscada, além de incomodar a mesa possivelmente acarretará em punições que
tornam a derrota algo quase irreversível. Estes jogos são produzidos de forma
que o jogador audacioso passar por um processo de doutrinação comportamental,
como um rato em uma caixa de Skiner, ao ponto dele internalizar a mensagem de
que “não vale a pena correr o risco”.
Abrir mão do risco e abraçar somente certezas põe o jogador
em uma zona de conforto óbvia e previsível. Se o risco não está envolvido para
diferenciar quem perde e quem vence, entram em cena outros elementos:
conhecimento das regras, concentração, privilégios na escolha e trapaça.
Conhecer as regras envolve dedicar tempo a jogar e/ou estuda-lo.
Concentração requer livrar-se de influências externas ao jogo quando se está
jogando. Só tem privilégios na escolha quem
está a frente na vez de escolher, seja por regra do jogo ou por vantagem
adquirida durante a partida. Trapacear é o recurso da desonestidade, diante da
possibilidade de obter benefício momentâneo ou duradouro fora das regras.
Sem riscos o jogo se torna essa escultura em mármore que
servirá para lembrar o jogador qual o comportamento que ele deve ter para “jogar”.
Curiosamente nessa segunda perspectiva jogar pode ser traduzido como forçar o oponente
a errar. No xadrez perde aquele que errar mais (as vezes a derrota é
determinada por um único erro).
Quando o jogo pune
severamente o erro, a mensagem que o jogador leva para fora do jogo remete-o à
vida real, onde não há espaços para errar. Quando o jogo se aproxima do real por
esse tipo de resposta à determinados comportamentos, ele deixa de ser um espaço
de espontaneidade e criatividade, tornando-se apenas uma questão de agir da
forma correta diante da situação proposta.
Um jogo é mais rígido quanto mais severa for a resposta ao
comportamento “errado” do jogador. A medida que essa rigidez aumenta as
possibilidades de vitória convergem para uma única ou poucas “rotas”. Não raro
existem jogos onde os jogadores conhecem bem, ou deveriam conhecer, as receitas
que o levam a vitória.
Fica a pergunta: o jogador está jogando ou seguindo o
algoritmo?
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