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Abstração x Complexidade

Se você faz parte do grupo que diz que “todo jogo é abstrato” a nossa conversa acaba aqui.  Isso por que esse é o tipo de argumento que adentra no campo o pragmatismo e encera a conversa, concluindo-a sem se permitir sobre ela refletir. É o tipo de coisa preguiçosa, de como eu diz que não adianta viver se no final de tudo a gente acaba morrendo.

O matemático Georg Cantor (1845-1918) foi notável em seu estudo dos conjuntos numéricos trasfinfinitos. Não nos debruçaremos sobre o fascinante universo da Teoria dos Conjuntos mas para entender um pouco do trabalho de Cantor tomemos um exemplo bem prático:

Suponha que você quer contar de um a dois. Quanto tempo levaria para executar essa tarefa?   Isso depende muito de quantos números entre um e dois você irá considerar. Isso por que entre um e dois existem uma infinidade de outros números que podem tornar essa contagem tão demorada que você jamais alcançará o número dois.

O que Cantor fez foi nos mostrar que existem infinitos conjuntos infinitos, traduzindo: entre dois números quaisquer você pode acrescentar infinitos números. Mas em nosso cotidiano quando você vai contar, por exemplo, o número de jogos de sua coleção você ignora completamente todos os números que não pertençam ao conjunto dos números Naturais (inteiros positivos). Ninguém fala: “eu tenho dois jogos e meio”. Por mais que os componentes  físicos de um jogo estejam incompletos, você tem o jogo. Ainda que isso torne-o inviável de ser jogado.

Ao falar que possui “seis jogos”, você está desconsiderando todos os números que não sejam inteiros e positivos, você está abstraindo. Quando você abstrai, o que está fazendo na verdade é desconsiderar tudo o que momentaneamente não é significativo para o processo no qual está engajado(a).

Quando você fala “ontem jogue com meus amigos” não significa que você jogou com todos os seus amigos. Nesta “fala” você abstrai todos os seus amigos que não estavam jogando com você ontem.

A abstração é importante pois permite que tenhamos foco em algo específico dentro de um universo de coisas (de um conjunto).  Sem a abstração certas tarefas podem se tornam demasiadamente complexas para serem resolvidas em tempo hábil e/ou sem auxílio de recursos computacionais.

Nos cursos básicos de física com frequência, a resolução de um exercício pede que você “desconsidere a força de atrito” ou “que haja troca de calor com o meio externo”. O que se está pedindo nesses exercícios é para abstrair essas coisas com o intuito de tornar a resolução do exercício mais fácil.

Costumo sugerir a alunos(as) que costumam ficar muito nervoso que quando forem apresentar algum trabalho para uma plateia finjam que não existe ninguém observando-os(as) “fora do palco”. O que estou dizendo é para “abstraírem” a plateia.

Outro dia uma garota me disse que ela iria abstrair tudo na vida dela e tornar “tudo mais fácil”. Preocupado, pedi para ela tomar cuidado pois apesar de ser necessário que em alguns momentos utilizemos de abstração para simplificar um processo, não se pode fazê-lo sempre e nem tampouco a todo momento. Se o autor criar um jogo totalmente abstrato, ao compra-lo o consumidor pode se deparar com uma caixa cujo interior não contém coisa alguma. No dia seguinte a garota me disse que não havia conseguido abstrair o irmão mais novo por mais que alguns minutos.

Você até pode abstrair força gravitacional da terra em alguns problemas, mas isso não significa que você ao fazê-lo poderá caminhar para além da janela sem sofrer seus efeitos. Isso nos evidencia que todo o processo de abstração acontece apenas em nossa mente, ou seja, ele não atua sobre o mundo físico. O “penso logo acontece” pode se tornar uma experiência no mínimo inconveniente.

Isso nos leva a uma outra constatação: abstração e complexidade são inversamente proporcionais. Quanto mais se abstrai a realidade um processo mais simples ele se torna. Podemos passar a partir deste ponto a considerar que existem “níveis de abstração” em oposição a “níveis de complexidade”;

Se um marido ou uma esposa resolvesse asbtrair todas as coisas que não gosta dele/dela ao final desse processo, certamente restaria na sua frente apenas uma imagem de si mesmo. A abstração em excesso provoca a descaracterização do objeto de interesse, o que nem sempre é algo ruim (jogos como xadrez, gamão e tantos outros estão aí para provarem isso).

Geralmente jogos que buscam dar ao jogador uma experiência mais próxima do real, se utilizam da abstração de forma bastante cautelosa. O nível de complexidade desses jogos tende a ser bastante considerável. Tomemos o cuidado de não acreditar que todo jogo com alto nível de complexidade seja mais “realístico”, alguns são complexos apenas e puramente por que seu autor assim o quis, sem objetivar uma proximidade da experiência real. Outras vezes a complexidade de um jogo é motivada por falha de design.

A dose entre abstração e complexidade deve ser bem clara para o criador de um jogo e essa relação deve ser bem compreendida também pelo jogador. Abstrair demais pode “esvaziar” um jogo, torna-lo complexo demais pode torna-lo “chato” e cansativo.

Jogos com setup demorado, com muitas regras, organizados em várias fases e/ou com muitos componentes geralmente o são assim para que certos processos aconteçam de forma a dar ao jogador um experiência mais próxima ao real. Jogos com menor nível de complexidade, portanto maior nível de abstração, tendem a possuir menos componentes, setup mais ágil e regras mais simples.

Por fim uma muito importante e que jamais pode ser confundida é relação direta entre complexidade e imersão. Um jogo não é “mais imersivo” simplesmente por que é mais complexo. Jogos com altos níveis de abstração podem ser bastante imersivos, principalmente quando estamos falando de jogos narrativos e/ou de interpretação de papeis. Mas essa é uma conversa para outro momento.

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